Editoria: Opinião   – Por Renato Sandrini – Jornalista 44.852/SC

Carpe noctem

Madrugada de quarta para quinta-feira, passa pouco das 4h da manhã. Deitei por volta de 1h e estava revirando na cama. Na cabeça um turbilhão de pensamentos e no peito um misto de sensações. Não consigo parar de imaginar a dor da família do senhor Laércio. Não sai de minha mente a ideia de cada vez mais estarmos à mercê de bandidos, eles é que tomam conta da cidade, pois não existe efetivo policial suficiente para cobrir todo o município. Resolvi levantar e escrever a coluna desta semana, do latim veio a inspiração. Se existe o carpe diem, aproveite o dia, por que não aproveitar a noite?

Acontece há tempos

Podemos imaginar que crimes de tamanho potencial ofensivo como o latrocínio não aconteciam em Navegantes, mas nos enganamos. Ontem estive na mais antiga e tradicional rede de supermercados da cidade. Não citarei nomes para preservar a família e a maioria dos leitores sabe de quem falo, se não sabe, procure o mais antigo supermercado em atividade, recomendo em especial o açougue. Ali trabalham uma mãe e dois filhos. O marido e pai foi morto durante um assalto há muitos anos. Naquela época, muitos devem ter pensado, é um caso isolado.

Vamos acostumando

O tempo passa e a sensação de insegurança aumenta. Recentemente houve o caso do Matheus Caike, balconista da farmácia lá do Gravatá que foi morto durante assalto a uma cliente. Novamente se pensa, é um caso isolado. Agora o senhor Laércio, homem que muito trabalhou, foi pioneiro do taxi na cidade, conquistou bens com o suor da labuta e por uma corrente de ouro foi morto, ao lado da mulher, área central da cidade, em plena luz do dia. Vamos ainda imaginar tratar-se de casos isolados, ou vamos acordar para o enorme problema de insegurança que assola nossa antes pacata cidade?

Enquanto isto

Tendo a insônia por companheira, lembro de uma postagem esta semana, do deputado Maurício Eskudlark, do PSD, mesmo partido do irresponsável, inepto, mal intencionado e despreparado governador Raimundo Colombo. Na publicação ele trouxe uma foto do ex-prefeito Roberto Carlos de Souza e Marcos Paulo da Silva, aquele que era o Marquinhos do PT, depois virou PSDB e agora só Deus sabe a qual partido pertence. Maurício diz ter tratado com a dupla de assuntos de interesse da cidade de Navegantes, em especial sobre segurança pública e a construção de uma nova delegacia.

Papo pra boi dormir

A ideia de nova delegacia é apenas a senha para vereadores, vereadora e servidores públicos municipais se esbanjarem em diárias, pois nunca vai sair do papel, uma vez que a cidade sequer possui efetivo policial para manter aberta a delegacia já instalada em terras dengo-dengo. Hoje as poucas guarnições da Polícia Militar que fazem o policiamento na cidade precisam se deslocar até Itajaí nas madrugadas e finais de semana, para realizarem a entrega de presos, porque a DP navegantina fecha suas portas com frequência por falta de agentes. Como abrir nova unidade? Isto é uma mentira.

Piegas, mas pertinente

Há uma fábula batida e corriqueira que diz que ao colocarmos um sapo em uma panela, com água em temperatura ambiente e levar ao fogo, aquecendo aos poucos, o animal irá acostumar e cozinhar, quieto, parado, sem perceber a morte chegar. Já se colocar o bicho na água já quente, ele pula. Assim está a sociedade navegantina, cozinhando em banho-maria, morrendo diariamente, pois acostumou-se com a situação. Não vemos sinais de mudanças, com exceção à Associação Empresarial (Acin) que vem dando um grito de alerta e convocando as forças, ainda vivas da sociedade, para lutar por mais segurança.

Acorda povo

Em Nova Iorque, ou New York, como queira, há muitos anos a bandidagem tomava conta da cidade e a alta criminalidade começou a afetar a economia local e trazer enorme sensação de insegurança, tal qual acontece hoje em Navegantes, resguardando as devidas proporções. Para dar fim a isto, foi adotada a política da tolerância zero, assim a cidade voltou aos seus verdadeiros donos, os nova-iorquinos. Aqui o que vemos é uma tolerância cada vez maior, falta inconformidade com a situação, falta ação. Vemos umas poucas atitudes, ainda no campo da retórica, na prática nada.

Um exemplo

Semana passada, O Navegantes tratou de um caso da Secretaria de Educação e da situação de crianças matriculadas na rede pública municipal de forma ilegal. Houve leitor que ainda tentou argumentar e criticar a matéria, dizendo haver várias outras ilegalidades não punidas na cidade e que este seria um delito menor. Mas um ilícito não justifica outro, precisamos copiar o que foi feito pelo Tio Sam, com tolerância zero, não cada vez mais abrirmos as pernas para o ilegal, para o burlamento das regras. É a moral da vidraça quebrada.

Funciona assim

Enquanto sociedade, ao vermos um vidro quebrado em uma janela e este não reparado, tendemos a quebrar o do lado. Então, precisamos consertar todas as vidraças, reparar todos os erros, não aceitar uns e criticar outros, acabar com todos. Não pode haver tolerância para o ilegal, para o imoral, precisamos combater o crime, não nos acostumarmos a ele. Hoje a família do senhor Laércio é quem chora, amanhã poderá ser a sua, a minha. E quando os bandidos finalmente assumirem o comando da cidade, choraremos todos, inertes, cozidos como o sapo da fábula.

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